Âncora
Hoje lembrei-me do meu amigão às pintas. Antes destes dois furões que agora correm aqui por casa, antes desta coreografia doméstica de brincadeira e pequenas urgências, durante 13 anos e uns trocos esse miúdo acompanhou tudo.
Viu-me ser ilustrador. Viu-me fazer serigrafia no rés do chão, com as mãos sujas de tinta e possivelmente um pouco high dos químicos mal ventilados. Dormimos tantos dias no sofá-cama que acabava por não abrir. Viu-me a mim e à Margarida descobrir Barcelona. Descobriu-a connosco.
Lembro-me dela sair para trabalhar e ele subir e entrar para dentro dos lençóis, muuuuuito devagar. Como se eu não fosse dar por isso. Para passarmos a manhã entre o sagrado e o provisório.
A vida lá fora cheia de ritmo, de decisões e pessoas a comprometerem-se com coisas que não entendem totalmente. E nós ali, suspensos.
A experiência de um cão ir a correr ao lado da bicicleta e a bicicleta ser lenta. A bicicleta passa a ser uma âncora. Ele não corria para chegar a lado nenhum, corria porque o corpo pedia.
Foi várias vezes mordido por outros cães. Isto é uma coisa que ninguém diz sobre a bondade. A bondade irrita. Ele não respondia, não entrava no teatro, não devolvia o gesto. Ficava ali, inteiro, com um furo novo.
Os anos passaram e voltámos a Lisboa.
Na primeira Desisto ficava o dia a relaxar no chão. Na porta. Estendia-se como se aquele espaço fosse uma extensão do próprio corpo.
O tempo é uma merda. Não porque passe, mas porque passa sem negociar. Estava nos braços quando nos deixou com um suspiro longo.
Quando era pequeno saltou para cima da mesa numa esplanada e abocanhou um bitoque. Ficou cheio de ovo na cabeça. A gema colada ao pêlo como uma coroa. O dude do restaurante teve pena e deu-nos outro. Talvez tenha percebido que certas coisas não são roubo, nem acidente, nem nada.
Noutro dia comeu dois cactos, daqueles com pelo em vez de picos. Até a terra correu. Cheguei e estava barrigudo, a dormitar do banquete.
Rei!


ponguinho. <3