Bailado Mecânico
Acordei todo dorido.
Com aquela moínha do corpo a lembrar-me onde estive nos últimos dias.
Ombros, costas, braços, o pé esquerdo.
Antes de anteontem estivemos a dar uma conferência de design com a Desisto. Fomos e voltámos no mesmo dia. Falar, voltar. Ficou o design naquele palco e por lá andou mais uns dias. Nós? Nós regressámos e deixámos um granda dia de sol por Portimão.
Dois filmes. L’Entr’acte, do René Clair, de 1924. Ballet Mécanique, de Fernand Léger e Dudley Murphy, de 1923/24. Os dois do mesmo ano, mais ou menos. Os dois mudos, mais ou menos.
Anteontem foi ensaio para depois os músicar, no ciclo Shh!
São diferentões, mas quando estou ali sozinho, começam a misturar-se.
Ensaiar a solo é lixado. Tudo pode funcionar… e por isso também pode tudo falhar.
Nos dias anteriores fico super pragmático, valha-me isso.
Ainda assim fiquei ali num som do Enner que funciona e, de repente, já não estava a ensaiar. Olhei para o relógio e era tardíssimo.
Até tenho método. Acho que isso veio do design. Voltar atrás, testar, perceber onde é que a coisa abre ou fecha. Insistência, calma, teimosia.
Não gosto de pensar em banda sonora. Quando posso escolho outra coisa. Banda sonora é aquilo que segue a imagem não é? Aparece o cão, entra o tema do cão. Beijinho? Teminha. O som a sublinhar. Às vezes é bem feito. Quase sempre é redundante.
O que me interessa é outra coisa. É o som estar ao lado. Provocar novas leituras.
Quando ensaiei o Ballet Mécanique pela primeira vez, ainda estava a tentar seguir o filme. O filme é rápido, corta muito, repete. Uma mulher a subir uma escada, uma mulher a subir as escadas, uma mulher a subir as escadas em loop. Um chapéu. Uma boca. Engrenagens. Pensei: isto tem ritmo, eu faço ritmo. Vou andar com ele.
Ficou mal. O filme já estava a fazer o que eu estava a fazer. Os cortes são percussivos. Estava a pôr bateria em cima de “bateria”.
A passear o cão e a pensar nisso…
Nisso e no cão, que o tipo é nervoso e eu tenho de estar atento.
O filme trata do mecânico, eu trato do que escapa ao mecânico e ponho o mecânico no orgânico. Drones onde o filme corta. Silêncios onde ele acelera. Voz em loop torto onde a repetição é limpa. Para haver duas coisas ao mesmo tempo.
No L’Entr’acte foi diferente. Um funeral que vira corrida atrás de um caixão. O Satie a saltar em câmara lenta. Este já nasceu com música. Do próprio Satie. Nem liguei o som, para não influenciar.
Ontem cheguei à Casa da Mully já com aquele cansaço que dá calma.
Encontrei o Fred. Falámos de música e de mais música e fez-me sentir em casa. O ciclo de cinema estava no último dia. Deu-me vontade de contribuir com uma espécie de explosão de fim de projecto.
Desci.
Atrás da tela montei o meu pequeno território. Bombo, tarola, um par de pratos, microfone. O voice to midi como motor. Anda no meu solo há um ano e tal, mas ainda meio escondido nos concertos. E o Enner, sempre ali pronto para complicar.
Agora o voice to midi também está a levar bateria. Dupla bateria. O que eu canto sai em modo free. Faço loops, coisas que não fecham bem, que abrem. Às vezes parece que corro atrás do som. Outras vezes é o som que me empurra.
O meu ride é o meu prato favorito. Do mundo! 26”, cheio de corpo. Desta vez levei o jazz ride. Mais pequeno, mais agudo. Obriga-me a tocar de outra maneira. Não posso forçar tanto. Faz-me ouvir diferente.
O PA era fixe, mas não me podia esticar.
Quando fechámos a tela e começou o filme eu já estava em modo concerto.
Nem houve transição. Nos fones já estava a fazer barulho. É como se o ensaio continuasse, mas com gente do outro lado.
Naquele momento em que deixa de ser claro se estamos a ver um filme com música ou a ouvir música com imagem. Os olhos vão, os ouvidos vão.
Acabou a primeira sessão. Quinze minutos de intervalo. Ajusto duas ou três coisas, falo com o Afonso e com a Catarina. Mas não saio completamente daquele estado de há quinze minutos atrás.
A segunda sessão entra diferente. Mais synth, mais controlada. Menos vontade de ir ao limite e mais de ficar ali. Mais bola no pé, que ao mesmo tempo estava a dar o Benfica-Sporting.
Saí.
Arrumar cabos, pratos, pequenas coisas que demoram sempre mais do que parece.
Hoje acordei todo dorido.
É o último dia de aulas este ano. No próximo ano lectivo há mais.
Depois de amanhã há outra conferência de design, esta em Tomar.
Depois de depois de amanhã devo ir ensaiar a solo. Preparar o disco. Com um pedaço de Bailado mecânico.

