O sol começa-me a queimar a dobra do joelho. Ainda hei-de conseguir ler mais umas páginas do livro que me tem acompanhado nesta transição de mal passado para médiozinho. Quando entrar na água gelada da baía de São Martinho, vou estar pronto para o after-sun.
Esta coisa do processo de algo nos colocar na consequência do próprio processo.
Entrar na água é para tirar o sol do corpo e porque por mim estava sempre lá. Hei-de sair, passar a toalha pelas pernas e voltar a deitar-me exactamente no mesmo sítio onde estou agora. Costas para o sol, preferencialmente.
Do médiozinho para o assim mais para o bem.
Há tipografias que têm ink traps, já vêm a pensar na impressão desde a sua forma digital. Trazem espaço para a tinta dar de si no papel, entrar por ali adentro e nesse processo ficarem como as queríamos ver logo de início.
As letras têm braços e pernas, olhos e até lágrimas. Que é o que eu vou ter se não sair do sol…
Na risografia cada cor passa pela máquina, uma camada de cada vez, e o papel nunca passa exactamente no mesmo lugar. Dobra um milímetro, é empurrado com força demais. No meio de duas cores impressas aparece-me um intervalo da cor do papel, que não desenhei mas que gosto de ver por ali. Podia aumentar a mancha, esconder uma cor debaixo da outra. Pensar no “erro” antes de a máquina ter oportunidade de o criar.
Também se vendem letras com diferentes versões, todas um bocado partidas, ou outras para parecer que é tinta e que está a acabar. A letra nasce logo usada, no ecrã. Tem falhas de pressão e tinta seca.
E há filtros para parecer que se passou pelo sol forte da risografia, sem sair do pixel.
Viro a página no Kobo, com os dedos gordurosos do protector solar 50, que teimosamente pus só na cara.
A dobra do joelho deixou de arder. Agora é o calcanhar…

