"Lembro-me perfeitamente"
Acho estranho a confiança que a maioria das pessoas tem na sua memória.
A segurança com que dizem “lembro-me perfeitamente”. Sempre “perfeitamente”. Como se o passado tivesse sido gravado num disco rígido interno, um doc à espera de ser aberto outra vez. Eu acho que é mais um “verão_2003_final_FINAL_2”.
Cada vez que alguém se lembra, está a reescrever. Não está a recuperar o ficheiro original. Está a gerar uma nova versão, a usar fragmentos, e a fazer relações, a partir do presente. Sobretudo isso, a partir do presente. A neurociência diz que o cérebro refaz o objecto. E nesse refazer, inevitavelmente, altera-o.
Se um dia tiverem de fazer um retrato robot ditado por mim, vai sair como o restauro do Ecce Homo. A mão hesitante da afantasia a tentar devolver contornos a uma coisa que já não os tem.
Não duvido do que as pessoas viveram. Duvido da confiança com que regressam lá. A facilidade em entrar outra vez numa divisão que já não existe. Em descrever a luz e a posição exacta das coisas.
Uma memória é um bootleg de um bootleg de um bootleg.
Para mim, não há cenário. Não há iluminação. É uma espécie de mapa sem imagem. Uma topologia conceptual.
Tenho pensado se não é como entrar numa sala completamente escura que conhecemos bem.
Aquele levantar a meio da noite sem ligar a luz. Não vemos a mesa, mas sabemos onde está. Não vemos a porta, mas sabemos para que lado abre.
É memória relacional.
Talvez por isso desconfie ainda mais da nitidez. A confusão da nitidez com verdade. Nitidez é só compressão da boa. Um JPG emocional exportado vezes demais, só que em alta resolução.
Quem tem imagens vive dentro de uma simulação contínua. Pode regressar e melhorar ligeiramente o passado, sem perceber.
Quem não tem imagem vive com outra matéria. Mais abstracta. Menos confortável, talvez. Menos convincente, também.
O problema que tenho tido é não saber se a ausência de imagem é uma limitação ou uma forma diferente de honestidade. Porque a imagem consola. Dá corpo. Sem imagem, não há esse consolo.
Talvez ninguém se lembre realmente de nada. Talvez só existam diferentes técnicas de reconstruir o que já não existe.
E a confiança, essa confiança que as pessoas têm, talvez não venha da memória em si, mas da imagem que inventaram para a suportar.

