Mão
Cair…
Ir a correr, lançado, e cair.
Joelhos no chão, as pernas dormentes, o tentar perceber.
Descobri um mito interessante sobre tapeçaria. A história aparece muito e é sempre a mesma: o artesão deixa um erro de propósito porque não existe perfeição, só em Deus. Dizem eles.
Um romantizar o artesanato, projectar sabedoria mística sobre objectos feitos por pessoas que se cansam, que também lhes dói as costas, que trabalham durante meses ou anos, nó a nó.
A verdade é menos mágica, quase sempre é. Quando fazes uma coisa durante tempo suficiente, deixas arestas. Um corte torto. Uma palavra repetida. Toda uma zona de trás para a frente. Não porque exista uma filosofia por trás, mas pelo cansaço, hesitação, pelo braço que já não responde.
Levantar, limpar as calças. Olhar em volta.
Tudo nasce de uma mistura de inspiração, das ferramentas que temos, de limitação técnica, de exaustão e de frescura. Depois, às vezes, alguém encontra ali uma intenção brilhante. Outras vezes tentamos construir um sistema inteiro e o que fica vivo é aquilo que escapou ao sistema. Aquilo que nos incomoda. Outras vezes pensámos e pensámos e, no final, só nós é que entendemos.
A mão pode simplesmente falhar porque é mão.
E, para a próxima, falhar melhor. Porque ainda não é máquina.
Ainda.

