Micro Machines
Hoje encontrei umas notas que escrevi na última tour com Earth Electric. Treze datas. No meio, um dia off que não foi bem off… não foi off de todo. Apanhei um avião na Alemanha e vim tocar a Vila Nova de Famalicão com Pop Dell’Arte. Desvio do dia a dia, dentro do próprio desvio do dia a dia.
Sair de uma tour nunca é simples. Sobretudo quando o corpo já percebeu o ritmo. Esta foi a primeira em tour bus. Chegou na 23ª tour, depois de 20 carrinhas e 2 carros. Not bad!
A rotina instala-se como se tivéssemos vivido sempre assim. Acordar. Café numa cidade qualquer que ainda não conhecemos bem. Algum do pessoal dos Crippled Black Phoenix lá fora com os kettlebells, a fazer exercício. Eu a olhar, a pensar que aquilo talvez fosse interessante, mas a acabar sempre a fazer outra coisa. Sair. Andar. Fotografar. Eu e o Alex a dizer piadas 24/7. Almoçar. Voltar. Tomar banho no day room. Ensaio de som. Um lanche rápido. O concerto estava SÓLIDO. Jantar. E depois Micro Machines num emulador de Mega Drive com o Alex e o João, até adormecer, enquanto o autocarro vai para a próxima cidade.
Não é uma rotina difícil, amigos.
Mas nesse dia off, não houve nada disso. Acordei e fui directamente para o aeroporto. Cheguei ao Porto por volta do meio-dia. Nas minhas notas escrevi “seis horas é uma noite de sono”. E é! Aluguei um day room e dormi até às 18:15. Acordei, percebi que os Pop estavam ligeiramente atrasados, e voltei a dormir mais uma hora. Dormir quando se pode, não quando se deve, chip de tour.
Quando chegaram, falámos, mas quase nada sobre o que acontecia simultaneamente. O que vamos tocar? O que se passa por Portugal? Fazer som. Um belo jantar juntos. Tocar. E depois regressar ao aeroporto. Porto. Europa Central. Tour bus. E continuar como se nada tivesse acontecido.
O tempo em tour é estranho. “Não é possível que estes dias tenham só 24 horas”. Há uma dilatação qualquer que não se explica. E depois voltamos e alguém pergunta “então, como foi?”. E de repente tens de condensar semanas que foram anos, em minutos. Ninguém quer realmente ouvir tudo. E faz sentido. As histórias, quando são muitas, anulam-se umas às outras.
Estamos ali inteiros. E ao mesmo tempo ficámos em casa.
Fisicamente, estamos bem. Surpreendentemente bem. Aliás, o pior dia é sempre o terceiro. Depois disso, podia continuar por meses. O corpo adapta-se e só no fim é que custa outra vez. Pela proximidade de casa. Aquela sensação de estar perto e ainda não poder chegar. No último dia então…
Chegamos a casa e há um desalinhamento. Coisas simples fazem menos sentido. O pequeno-almoço, por exemplo, fica sempre aquém. Em tour, sobretudo na Europa Central, há uma atenção quase obsessiva ao pequeno-almoço. É um ritual. Cá, volta a ser só uma refeição à qual normalmente faço skip.
Em tour leio pouco. Muito menos do que aqui. Mas descanso mais. O dia acabava sempre com o correr da cortina do bunk e um concerto-drone Merzbow, para os meus amigos. Saudades.


eu leio este relatos de tour todos!!! todos os detalhes !!! bora fazer tours!! :D