Pulsos
Trago nos pulsos a memória do que construí com as mãos, que foi sobretudo tocar bateria e carregar amplificadores. O médico apontou para a ecografia e disse que eram micro-rupturas. Eu ouvi que eram gravações não autorizadas, feitas ao vivo em momentos de descontrolo. Com aquele ruído bom (e/ou) irritante que qualquer melómano jura fazer parte da obra, porque está onde devia estar silêncio.
Um amplificador não se carrega sozinho. São precisas duas pessoas, uma de cada lado, a fintar degraus e portas estreitas. Ficas ligado a alguém por um objecto de quarenta quilos que rosna mesmo quando está desligado. Ou és tu que estás a rosnar e nem dás por isso.
Não consigo ver esses momentos quando fecho os olhos. Mas o pulso direito sabe o ângulo exacto da porta dos arrumos do extinto Sabotage, sabe do ziguezague da garagem 65A, sabe onde a coluna do Bassman faz pressão contra o osso. Fiz uma tour com I Had Plans com essa coluna e lembro-me de algures em França descer para uma cave e parecer que estava a levar um Fiat Punto pelas orelhas.
Agora que toco no solo com amps, voltou-me a vontade idiota de os aumentar. Dual mono numa coluna Marshall que está na sala? Talvez… ou duas, um stereo… não sei se me cabe no carro. No negociar que faço com as minhas costas, vou perdendo para um par de Pignose, ou aqueles mini amps da Danelectro.
Tantos anos, todas as vezes que não aqueci, todas as vezes que disse eu ajudo, e todas as vezes que alguém me disse isso a mim. Toda a memória do que construí com as mãos, nos pulsos.

