Somos só lixo
E se existir mais no lixo do que a vida depois da morte das coisas.
Um copo numa mesa é um copo. O mesmo copo partido é só um monte de vidro. A sujidade é “matéria fora do lugar”. É meio badass até. Sapatos em cima da mesa não estão sujos, estão fora do lugar.
A obsessão chalupa com a purificação. Arrumar e separar e tirar o que nos faz confusão da frente.
O chiffonnier andava pelas ruas a apanhar restos. Trapos, jornais velhos, ossos. Era um historiador involuntário.
A história gosta de coisas limpas. Datas, figurões, edifícios preservados, narrativas coerentes. Tudo catalogado e domesticado.
“Tens a boca cheia de palavras lindas
P’ra ti sou lixo
Somos só lixo”
O meu avô chegou a ser Almeida, como ele dizia. Falava disso com carinho.
A barreira entre o que era ou não lixo vi eu ser apagada com uma boa fita cola.
Adoro ruínas, mas a ruína ainda mantém forma, e tem pinta e romantismo. O lixo não. O lixo é anti-heróico.
“Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p’ra pensar”.

