Tectos
A semana passada foi altura de apontar um amplificador para o tecto e gravar o novo solo.
Passar anos a tentar dominar o contrário. Direccionar o som. Apontar para um microfone, ou para uma parede. Saber para onde vai.
Quando viramos um amplificador para cima o som deixa de ter um destino assim tão evidente. Em vez de ser disparado contra alguém, é lançado para um espaço estranho. Bate lá em cima, espalha-se, passa a ser uma chuva de ruído a cair sobre nós.
Gosto desta ideia. Um teatro responde de uma maneira, uma igreja doutra. A minha sala de ensaio outra totalmente diferente. O espaço manda e nem percebes quanto, só quando te vês noutro lugar e não reconheces totalmente o que chega. Quando o espaço te lixa os planos.
Juntei-lhe um microfone num pêndulo, quase a arranhar a rede do amp. Passa a corpo em movimento a atravessar um campo acústico, a abrir! Sem dó! O microfone como motor de feedback. Quando passa perto da coluna do amplificador, o sinal aumenta e o amp grita connosco. Quando se afasta, desaparece, ou às vezes só acalma.
O movimento do pêndulo não é totalmente previsível. Mesmo quando penso que sim. Sinto sempre que estou a um acaso de levar com um sm58 na tromba.
Um pêndulo perfeito só existe na imaginação. No mundo real o tripé abana, os cabos prendem. O sistema está sempre a fugir da sua descrição.
O delay, na cadeia desse micro, acrescenta outra camada estranha. Um lastro com os dentes arregaçados. À medida que o feedback aumenta, o sistema começa a construir memórias muito curtas de si próprio. Pequenos fantasmas acústicos que vivem durante alguns segundos antes de desaparecer. E o pêndulo perde velocidade e grita ainda com mais força, mas com menos fantasmas.
O pitch shifter dá estranheza, altera a identidade do som. Desloca-se para uma região onde talvez nunca tivesse estado.
É o feedback que escolhe as frequências que aguentam, e as que morrem rápido.
O resultado é meio electrónico, mas o mecanismo é físico. Ouvimos-lhe a tecnologia da mesma forma como lhe ouvimos a carne.
Interessa-me a sensação de que não estou a tocar um instrumento, estou a assistir um instrumento. No fundo, um amplificador apontado para o tecto e um microfone em pêndulo são uma forma de desistir. Não de tocar. Mas da fantasia do controlo.
Sinto que é nesse momento que o sistema começa finalmente a falar por si.



és super boss. <3