Ukemi
Somos todos uma coluna.
Uns são umas NS10 (mas mono), outros vêm em dupla e são mesmo stereo. Há quem seja um sub (não se ouve, mas sente-se). Ou um altifalante rasgado. Uma coluna também pode ser um micro, o processo de a transformar em micro nem é difícil. Ser micro e, ao mesmo tempo, ter a capacidade de pôr som cá para fora é que já é uma ginástica.
Alguns têm um floor, um ruído que não sai. Outros são silêncio.
Começa muitas vezes como uma irritação concreta. Discutir com alguém é quase sempre um problema de escuta. E lá está, há quem esteja 24/7 a pôr cá para fora.
Na esgrima há o sentiment du fer. Não ver o adversário, sentir o ferro dele através do teu. Um contacto mínimo, suficiente para perceber onde está a tensão. A riposte é uma consequência desse contacto. O toque encontra o sítio.
No aikido não há adversário. Há um movimento em desequilíbrio e tu entras onde ele já está a ir. Redireccionamento. A eficácia não vem de resistir, vem de não interromper o fluxo.
A irritação vem antes, a resposta vem depois. Entre uma coisa e outra há um intervalo onde tudo já se reorganizou. O outro já não está ali (ou nunca esteve). E eu fico a escrever para esse intervalo.
Podes pegar numa placa fina. Cartão, contraplacado, espuma e colar-lhe um exciter. A placa inteira vibra e o som sai de toda a superfície. Praticamente qualquer coisa rígida e leve serve: uma porta, uma janela. Tens uma dispersão maior do que num cone, e a coisa não soa como uma coluna.
Soa como se a parede estivesse a falar.
Falar para uma parede é quase tudo o que pomos nas redes.
A flèche. A queda controlada. É talvez a única vez em que a esgrima admite o desequilíbrio como recurso. E mesmo assim só por uma fracção de segundo.
No aikido: mae ukemi, ushiro ukemi, yoko ukemi. Cair à frente, atrás, para o lado. A queda tem técnica.
Quando uma coluna cai enquanto toca, o cone descentra antes de a caixa bater no chão. A distorção começa antes do impacto.
O som de uma coluna a cair enquanto toca é diferente do som de uma coluna a cair em silêncio.
Somos todos uma coluna.

